by Miriam Romaneli
A casa de Sushmita Banerjee, na província de Paktika, leste do Afeganistão, – região em que o Talibã é especialmente influente – foi invadida no dia cinco deste mês, antes do amanhecer, quando seu marido atendeu à porta e foi rapidamente amarrado e vendado. Segundo o chefe de polícia da província, Dawlat Khan Zadran, os invasores levaram a autora a uma estrada próxima e nela atiraram pelo menos quinze vezes.
Ela, além de escritora, atuava como médica na região do vilarejo em que vivia, onde era muito conhecida por seu trabalho pela comunidade. O governador da província, Moheebullah Shamim, afirmou ao embaixador da Índia em Kabul, capital do Afeganistão, que os atiradores provavelmente teriam a mulher bengali como alvo em função de seu ativismo pelo direito e saúde das mulheres afegãs locais na cidade de Sharama. Ainda, talvez, ela teria sido atacada em razão de suas memórias relatando a vida no Afeganistão controlado pelo Talibã.
Banerjee escreveu o livro “Kabuliwalar Bangali Bou”, ou “A Esposa Bengali de um Homem de Kabul”, que narra como Sushmita conheceu seu marido afegão, na Índia, concordou em casar-se apesar da desaprovação de seus pais e de suas diferentes religiões e, principalmente, como sua vida se transformou após a mudança para o Afeganistão. Em 2003, a obra foi adaptada ao cinema, sob o título de “Escape from Taliban”.
Com a ascensão e tomada do poder pelo Talibã, entre 1994 e 2001, as restrições às mulheres tornaram-se cada vez maiores. As burqas tornaram-se obrigatórias; mulheres foram proibidas de trabalhar, e meninas, de ir à escola. A interpretação extremista da religião islâmica pelo grupo privou mulheres até de atendimento médico adequado, uma vez que elas não poderiam ser examinadas pelos únicos médicos disponíveis, homens, senão completamente vestidas.
A hostilidade dos fundamentalistas islâmicos quanto à população hindu e sikh também não é recente. Apenas seis meses antes da invasão do país pelas forças militares dos EUA, em 2001, o Talibã impôs rígidas restrições à comunidade hindu local, na época com cerca de cinco mil pessoas em Kabul, que foram obrigadas a usar uma espécie de marcação em suas roupas para serem distinguidas da maioria muçulmana (Não lembra certa Estrela de Davi amarela?). “Minorias religiosas vivendo em um Estado islâmico devem ser identificadas”, afirmou Mohammed Wali, o então ministro de políticas religiosas.
Sushmita havia tentado fugir do país múltiplas vezes antes de, efetivamente, conseguir, em agosto de 1995. Devido a essas tentativas, foi condenada em várias ocasiões à execução.
“Ainda me lembro do dia em que pisei pela primeira vez em solo indiano após ter saído de lá”, disse em entrevista próximo ao lançamento da adaptação de seu livro em Bollywood.
“Estava chovendo. As pessoas corriam e procuravam abrigo. Mas eu não corri. Só fiquei ali e deixei que a chuva lavasse minha dor. Eu senti que, se eu pude aguentar tanto no Afeganistão, com certeza poderia suportar a chuva da minha terra natal. Não sei quanto tempo fiquei ali, mas eu nunca esquecerei aquele dia”.
Ainda permanecem desconhecidos os motivos por que Sushmita Banerjee voltou ao país em que o Talibã continua a ter força, após viver 17 anos na Índia. Também não se tem por certo o motivo de seu assassinato, nem a participação do grupo extremista.
Ninguém assumiu a responsabilidade pelo crime, e o Talibã nega a autoria. “Rejeitamos qualquer afirmação de participação dos Mujahidin [guerreiros santos, participantes do Jihad –Guerra Santa] na morte da senhora indiana”, disse seu porta-voz, Zazibullah Mujahid.
A morte de Banerjee faz parte de uma série de ataques a mulheres proeminentes no país durante os últimos meses. Em agosto, foi confirmado o sequestro de uma legisladora, representante da província de Kandahlar no parlamento. Ela foi negociada com a soltura de quatro insurgentes detidos pelo governo. Também no mês passado, insurgentes atacaram o comboio de uma senadora afegã, ferindo-a gravemente e matando sua filha de oito anos e um guarda-costas.
Esses ataques aumentam a insegurança quanto aos direitos das mulheres em um país em que muitas mal podem sair de casa, especialmente no contexto da iminente retirada das tropas estrangeiras do Afeganistão, em 2014 (o que pode não acontecer, dependendo dos desdobramentos da crise síria).
Revisado por Carlos Cavalcanti


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